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Os Imortais, de Paulliny Tort

  • há 14 minutos
  • 2 min de leitura


Entre a origem da linguagem e a permanência dos afetos.


Os Imortais, de Paulliny Tort, é uma experiência literária singular.


Ambientado no período paleolítico, o romance acompanha a trajetória de um clã de neandertais em sua luta constante pela sobrevivência. Cercados pela fome, pelas doenças, pelas intempéries e pelos perigos de um mundo hostil, uma travessia sem destino aparente, guiados pela necessidade de continuar existindo.


Após um conflito com outro agrupamento, uma criança sapiens é incorporada ao clã. Afastando-se de visões estereotipadas sobre os primeiros hominídeos, Tort cria uma narrativa de aventura que também se configura como uma fábula sobre a origem da humanidade.


A premissa, por si só, já é fascinante. Mas o que realmente impressiona é a maestria com que Paulliny Tort reconstrói não apenas aquele mundo, mas também a consciência daqueles indivíduos. A autora não se preocupa em apresentar uma reconstituição científica da Pré-História; seu interesse está em imaginar uma forma de perceber a realidade anterior à linguagem tal como a conhecemos.


Essa escolha determina toda a estrutura da obra. Os personagens não possuem nomes próprios, os diálogos são escassos e a floresta deixa de ser um simples cenário para se transformar em um organismo vivo. A experiência acontece por meio dos cheiros, da temperatura, dos sons, da textura da água, do gosto da comida e da movimentação dos animais. Pouco a pouco, deixamos de observar aquele universo para, de fato, habitá-lo.

E que experiência extraordinária foi essa.


Senti sabores, contemplei paisagens jamais imaginadas, ouvi sons desconhecidos e cheguei a sentir o cheiro da fumaça, do mofo e da carne assada. Conheci o sílex, acompanhei descobertas e me aproximei de personagens sem nome, mas repletos de personalidade. A Velha, a Garota, o Estrangeiro, o Pequeno, Homem e Mulher deixaram de ser figuras distantes para se tornarem presenças vivas.


O mais surpreendente é perceber que, por trás daquela realidade tão brutal, existiam sentimentos que continuam a nos definir milhares de anos depois. Medo, compaixão, amor, ciúme, pertencimento, vaidade, luto e angústia atravessam as páginas e nos lembram que a humanidade não nasceu com as cidades, com a escrita ou com a tecnologia.


A desconstrução da linguagem talvez seja o aspecto mais fascinante da obra. Conhecer um povo de outro tempo exige abandonar a necessidade de julgar e interpretar o mundo a partir dos nossos próprios parâmetros. Ali, não existem conceitos como bondade ou maldade. Existe apenas a natureza em seu estado mais puro e a luta incessante pela sobrevivência.


A escrita possui um ritmo contemplativo, quase hipnótico, convidando o leitor a desacelerar.

Terminei a leitura com a sensação de ter conhecido uma das propostas mais originais da literatura brasileira contemporânea. Mais do que um romance sobre neandertais, Os Imortais é uma reflexão sobre aquilo que somos e sobre tudo aquilo que continuamos sendo.


Afinal, desde o momento em que nossos ancestrais compreenderam que existiam e que um dia deixariam de existir, carregamos a mesma inquietação: a necessidade de sobreviver, amar, lembrar e permanecer.


⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️



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