Quando a Deusa do Arco-Íris Chorou — Cecilia Manguerra Brainard

A guerra é devastadora por tudo aquilo que destrói, mas talvez seja ainda mais cruel por tudo aquilo que rouba de quem sobrevive a ela.
Ambientado durante a ocupação japonesa das Filipinas na Segunda Guerra Mundial, o romance nos apresenta a história de Yvonne Macaraig, uma menina de apenas nove anos que vê sua infância ser abruptamente interrompida pela violência do conflito. Através de seu olhar, acompanhamos a transformação de um mundo até então familiar em um cenário de medo, perdas, fome e incertezas. A fuga para as montanhas, o contato com os guerrilheiros e a luta pela sobrevivência passam a ocupar o lugar das brincadeiras e das descobertas próprias da infância.
O que mais me tocou nesta narrativa foi justamente a perspectiva infantil diante de tamanha brutalidade. Há algo particularmente dilacerante em testemunhar o horror pelos olhos de uma criança. A perda da inocência acontece em todos os sentidos, e sobreviver se torna a única urgência. Não há espaço para a ingenuidade quando a realidade exige coragem, mesmo daqueles que ainda deveriam estar aprendendo a ser crianças.
Cecilia Manguerra Brainard constrói uma narrativa sensível, mas poderosa, na qual a dureza dos acontecimentos históricos encontra abrigo na mitologia e no folclore filipino. As histórias ancestrais, os mitos e as lendas transmitidos entre gerações não aparecem apenas como elementos culturais, mas como uma espécie de refúgio emocional. São essas narrativas que oferecem a Yvonne algum sentido em meio ao caos, fortalecendo sua identidade e sua ligação com as raízes de seu povo.
E talvez esteja aí uma das maiores belezas do livro: mostrar que, mesmo quando quase tudo é arrancado de nós, ainda existem histórias capazes de nos conectar àquilo que somos. A memória e a cultura também são formas de resistência.
É um livro que me fez pensar sobre a capacidade humana de produzir os mais terríveis sofrimentos, mas também sobre a extraordinária força que existe na reconstrução. Porque, mesmo depois da destruição, ainda é possível recomeçar. Mesmo que só nos tenha restado pouco mais que os alicerces.
Uma leitura comovente, por vezes atroz, que nos lembra que nenhuma guerra termina verdadeiramente quando cessam os combates. Suas marcas permanecem nas pessoas, nas famílias e na memória coletiva de um povo.
E, quando a deusa do arco-íris chora, talvez suas lágrimas também sejam pelas infâncias que nunca puderam voltar a ser o que eram.
⭐⭐⭐⭐⭐
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