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A Casa dos Espíritos, Isabel Allende

  • há 11 minutos
  • 2 min de leitura

Alguns livros nos conquistam imediatamente. Outros precisam de tempo, insistência e algumas páginas de resistência até finalmente nos mostrar por que são considerados clássicos. A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, foi, para mim, um pouco dos dois.


O romance acompanha aproximadamente cinquenta anos da história da família Trueba, atravessando três gerações de mulheres e um país que passa por profundas transformações políticas e sociais. Embora o território nunca seja nomeado, é impossível não reconhecer no romance ecos da história do Chile, especialmente nos capítulos finais, quando a narrativa mergulha na repressão e na ditadura.


Confesso que comecei a leitura com expectativas muito diferentes do que encontrei. Talvez pelas muitas referências que já tinha ouvido sobre o livro, imaginava uma obra em que a ficção histórica teria um papel já no começo. E não foi exatamente isso que encontrei.


O realismo mágico ocorre, principalmente na personagem Clara, que possui poderes sobrenaturais: prevê acontecimentos, conversa com espíritos e movimenta objetos. Porém, essas características não dominam a narrativa. Elas aparecem quase naturalmente, incorporadas ao cotidiano, dando à história uma atmosfera de encantamento sem afastá-la da realidade.


Mas Clara não é apenas uma personagem com poderes sobrenaturais. Representa uma força que contrasta diretamente com Esteban Trueba.

E aqui preciso confessar: peguei ranço de Esteban Trueba. Muito!!


Autoritário, conservador, violento e profundamente patriarcal, ele representa uma sociedade estruturada sobre o poder masculino, a desigualdade e a posse. Ao longo do livro, seus atos produzem consequências que ultrapassam a própria vida.


A violência contra as mulheres foi, para mim, um dos aspectos mais difíceis da leitura. Há abusos físicos e psicológicos muito impactantes. Não era algo que eu esperava encontrar com tamanha intensidade.


Até aproximadamente 60% da leitura, eu ainda sentia que os dois primeiros livros da trilogia que havia lido anteriormente me envolviam mais. Porém, decidi insistir , e ainda bem.

Porque, pouco a pouco, a história toma outros rumos.


O que inicialmente parecia ser principalmente um drama familiar começa a se transformar em algo muito maior. A política ganha espaço, a sociedade se transforma e os conflitos da família passam a se entrelaçar com os conflitos de uma nação. É nesse momento que o livro realmente me pegou.


As dores, os amores, os conflitos e as escolhas das mulheres dessa família atravessam diferentes momentos históricos e revelam como as consequências de uma geração podem alcançar profundamente as seguintes.


A escrita de Isabel Allende é sensível, delicada e espirituosa, mas também não poupa o leitor diante da violência e das injustiças. A autora consegue conectar os dramas pessoais e espirituais de uma família aos traumas políticos de uma sociedade inteira.


No fim, percebi que A Casa dos Espíritos era muito mais do que a história de uma família. É uma narrativa sobre poder, amor, violência, memória, espiritualidade, desigualdade e resistência. É também uma história sobre mulheres que, apesar das circunstâncias, encontram diferentes maneiras de sobreviver, amar e resistir.


Inteligente, memorável, delicado e, em muitos momentos, doloroso, A Casa dos Espíritos é sobre aquilo que permanece "assombrando" uma família e uma nação muito depois de os acontecimentos terem terminado.




⭐⭐⭐⭐⭐



Leia e veja o que você acha! 🥰

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