Ponciá Vicêncio — Conceição Evaristo
- há 10 horas
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É um romance breve, daqueles que se lê em poucas horas. Sua narrativa é pequena apenas na extensão; na potência, é imensa.
Acompanhamos a trajetória de Ponciá desde a infância até a vida adulta, em um percurso marcado por perdas, deslocamentos e pela incessante busca por compreender quem é. Mas sua história nunca é apenas individual. A identidade da protagonista está profundamente entrelaçada à memória de sua família, especialmente à figura do avô, cuja herança simbólica atravessa gerações e faz do passado uma presença constante no presente.
Ao longo da leitura, tive a sensação de estar diante de uma história sobre lutos que nunca encontraram espaço para serem elaborados. O luto pela morte do pai, mas também o luto dos filhos vivos que partiram, das ausências provocadas pela pobreza, pela migração, pelo racismo e pelas violências cotidianas. No centro de tudo está uma mulher obrigada a seguir vivendo enquanto carrega camadas e mais camadas de dor. É como se cada personagem precisasse aprender a sobreviver às marcas deixadas por uma história que começou muito antes de seu nascimento.
Em vários momentos, sua identidade se fragmenta, como se ela estivesse sempre tentando encontrar um lugar onde pudesse finalmente existir por inteiro. Essa sensação de desencontro é construída com extrema delicadeza, tornando impossível não sentir empatia por sua caminhada.
A autora escreve sobre escravidão, desigualdade social, racismo, pobreza, apagamento e tantas outras violências históricas sem reduzir seus personagens ao sofrimento. Pelo contrário: eles permanecem humanos, complexos e atravessados também pelo afeto, pela memória, pela esperança e pela resistência.
Sua prosa é delicada sem perder a contundência. É lírica sem deixar de denunciar. Existe um equilíbrio admirável entre sensibilidade e força, fazendo com que cada frase carregue um peso emocional que dispensa exageros.
Uma das passagens que mais me marcou resume bem o espírito da obra:
"A vida era uma mistura de todos e de tudo. Dos que foram, dos que estavam sendo e dos que viriam a ser."
Essa frase traduz a essência do romance: somos feitos das histórias que nos antecedem, das memórias que herdamos e das marcas que escolhemos transformar. Em Ponciá Vicêncio, passado e presente caminham lado a lado, assim como o real e o imaginado, mostrando que nossa identidade nunca é construída apenas pelo que vivemos, mas também pelo que recebemos daqueles que vieram antes de nós.
É uma narrativa que denuncia sem perder a poesia, emociona sem recorrer ao sentimentalismo e convida o leitor a refletir sobre as heranças que carregamos , sejam elas de dor, resistência ou esperança.
Uma obra delicada, necessária e profundamente humana.
⭐⭐⭐⭐
Leia e veja o que você acha! 🥰




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