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O país dos outros, de Leïla Slimani

  • há 5 dias
  • 2 min de leitura

A autora constrói uma narrativa que não se limita a contar a história de um casal, mas expõe com desconforto as fraturas de um mundo atravessado por colonialismo, deslocamento e relações de poder. Inspirada em parte na própria história familiar da autora, a obra mergulha em temas como identidade, racismo, diversidade religiosa e, sobretudo, na condição feminina em um cenário histórico marcado por tensões políticas e sociais no Marrocos rumo à independência.


Acompanhando Mathilde, uma jovem alsaciana (região da França) que se casa com Amine, um soldado marroquino, a leitura se desenrola como um longo processo de adaptação, ou de não adaptação, a um país que nunca deixa de ser “o país dos outros”. E talvez seja justamente aí que o livro mais provoca: ninguém pertence totalmente a lugar nenhum. Nem os franceses colonizadores, nem os marroquinos sob domínio, nem mesmo as mulheres, constantemente deslocadas dentro de suas próprias casas e relações.


A experiência de leitura, para mim, foi marcada por um certo desconforto constante. A escrita lenta parece se alongar demais, diluindo a força do contexto histórico que, ao meu ver, poderia ter sido mais intensificado diante da riqueza do pano de fundo político da época.


Mathilde é uma personagem profundamente humana: ao mesmo tempo vítima e agente de suas próprias contradições. É impossível não sentir empatia pelo seu isolamento, pela solidão e pela frustração de uma vida que vai se estreitando dentro de um casamento duro e de uma sociedade que a rejeita.


Já Amine é talvez a figura mais ambígua do livro. Ele encarna tanto o homem ferido por um sistema colonial quanto o marido que reproduz violências dentro do próprio lar. A naturalização de certas violências dentro da relação me provocou incômodo, como se fossem suavizadas sob a ideia de um amor “imperfeito” ou de um casamento turbulento. Acredito que faça parte da cultura marroquina, mas não deixou de ser incômoda.


É um livro que incomoda porque não oferece conforto narrativo nem moral. Ele expõe contradições o tempo inteiro: o colonialismo e suas hierarquias, o machismo estrutural, o desejo de pertencimento, a solidão feminina e a ilusão de liberdade dentro de estruturas opressivas.


Talvez maior força do livro seja não entregar respostas fáceis, mas nos obrigar a encarar o desconforto de todas as versões possíveis de verdade.


Leitura coletiva com @curtaleitura


⭐⭐⭐



Leia e veja o que você acha! 🥰

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