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Querida Konbini, de Sayaka Murata

  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

É uma daquelas leituras que parecem simples na forma, mas profundamente inquietantes no conteúdo. A escrita é fluida, direta e quase minimalista, mas carrega uma carga reflexiva enorme. É um livro que fala de propósito, felicidade e, principalmente, das camadas invisíveis de pressão que a sociedade impõe sobre o indivíduo.


A pergunta que atravessa toda a narrativa, e que não sai da cabeça depois da leitura, é: o que fazemos da nossa vida por desejo genuíno e o que fazemos apenas para caber nos moldes sociais? Onde termina a escolha pessoal e começa a performance social?


A protagonista, Keiko Furukura, é uma personagem complexa e fascinante justamente porque não se encaixa. Desde a infância, ela se sente deslocada, sempre vista como “estranha”. Para ela, o mundo é extremamente lógico e racional, enquanto as subjetividades humanas, emoções, convenções, expectativas, soam confusas, arbitrárias e, muitas vezes, inúteis.


Tudo muda quando Keiko começa a trabalhar em uma loja de conveniência (konbini). Ali, ela encontra algo raro: um manual de funcionamento da vida. Regras claras, falas prontas, gestos definidos, horários. Pela primeira vez, ela sente que pertence a uma sociedade “normal”, desde que siga aquele roteiro perfeitamente ensaiado. Seu maior desejo não é crescer, mudar ou se realizar, é apenas continuar sendo uma funcionária exemplar.


A comparação entre a loja e a sociedade funciona como uma metáfora brilhante: ambos são sistemas que exigem adaptação, repetição e adequação. Keiko não quer “ser feliz” nos termos convencionais; ela quer funcionar.


Um detalhe formal que reforça essa sensação é o fato de o livro não ter capítulos. A narrativa é uma sequência contínua de acontecimentos, quase como um fluxo de consciência. Isso dá a impressão de que a própria Keiko nos convida a observar sua vida sem filtros, sem dramatizações, sem moral. Apenas fatos.


No entanto, é impossível não “sujar” essa leitura com os nossos próprios preconceitos. Projetamos sofrimento, vazio ou tristeza onde a protagonista enxerga apenas funcionalidade. A angústia, muitas vezes, é mais nossa do que dela.


A frase do livro resume perfeitamente essa crítica social silenciosa:

“O padrão do mundo é compulsório e os corpos estranhos são eliminados sem alarde. Os seres humanos fora do padrão acabam sendo retificados.”

Não é um livro sobre transformação, mas sobre a violência sutil de querer corrigir quem simplesmente existe de outra forma. É leve, irônico, desconfortável e profundamente humano, mesmo quando a própria protagonista não se reconhece assim.


Uma leitura curta, mas que ecoa por muito tempo. Daquelas que não gritam, não chocam, mas deixam uma pergunta incômoda martelando: será que vivemos porque queremos… ou apenas porque aprendemos a imitar o que esperam de nós?


⭐⭐⭐⭐



Leia e veja o que você acha! 🥰


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