Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves
- 9 de jun.
- 2 min de leitura

Ler Um Defeito de Cor é atravessar uma experiência literária que vai muito além da ficção: é encarar de frente a formação do Brasil e suas feridas mais profundas. O livro se impõe como uma verdadeira aula histórica e emocional sobre a escravidão e seus desdobramentos, costurando memória, dor e identidade com uma força rara na literatura brasileira contemporânea.
Acompanhamos Kehinde, nascida no início do século XIX em Savalu (atual Benin), cuja infância é interrompida por tragédias que culminam em sua captura e travessia forçada para o Brasil. A autora não suaviza esse percurso: a travessia nos navios negreiros é descrita com brutalidade, revelando a desumanização extrema e a tentativa do apagamento sistemático de suas culturas. Ao chegar ao Brasil, Kehinde é rebatizada como Luísa, um gesto que simboliza a tentativa colonial de apagar identidades africanas e impor uma nova existência.
Mesmo quando lhe tiram o nome, a terra e a infância, ela insiste em preservar sua memória, seus vínculos e sua forma própria de existir. Acompanhá-la ao longo de quase nove décadas de vida é testemunhar não apenas a sobrevivência, mas a complexa construção de uma mulher que resiste como pode, nem sempre de forma idealizada, nem sempre heroica.
Aliás, ao meu ver, esse é um dos pontos mais fortes do livro: Kehinde não é uma personagem feita para ser perfeita. É alguém que erra, que age pela emoção, que toma decisões difíceis e, ainda assim, segue lutando por si e pelos que ama.
A leitura provoca um mergulho na formação cultural do Brasil, revelando origens e resistências. Ao mesmo tempo, há um incômodo constante diante da crueldade do sistema escravista. Em vários momentos, é necessário pausar a leitura, tamanha a carga de violência e desumanização descrita.
Não é uma leitura rápida, mas uma travessia longa, que exige reflexão. (foram 05 meses de LC com a @agoraliteraria_) A escrita, carregada de camadas simbólicas e históricas, transforma a experiência em algo próximo de um testemunho, uma narrativa que parece oscilar entre romance, memória e registro histórico.
É um livro que incomoda, emociona e amplia a forma como entendemos identidade, pertencimento e memória coletiva. Fala sobretudo sobre a resistência negra na construção do Brasil.
Uma leitura difícil, sim, mas absolutamente necessária.
Curiosidades: O título do livro "Um defeito de cor" baseia-se em uma lei do período colonial brasileiro. Pessoas negras que desejassem ocupar cargos no exército ou na administração religiosa precisavam escrever ao Imperador pedindo dispensa do "defeito de cor", uma forma institucional de inferiorizar a identidade e a ancestralidade negra no país.
Esse ano - 2026 - ele completa 20 anos da sua publicação! O romance é uma dramatização da vida de Luísa Mahin, mãe do poeta e advogado abolicionista Luis Gama.
⭐⭐⭐⭐⭐
Leia e veja o que você acha! 🥰
LC @agoraliteraria_




Comentários