O Senhor das Moscas, de William Golding
- Cristina Oliveira
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- há 3 dias
- 2 min de leitura

Ele começa de forma quase tímida, mas termina como um soco no estômago. Minha experiência de leitura foi marcada por essa divisão muito clara: uma primeira metade mais lenta, por vezes arrastada, e uma segunda parte absolutamente hipnótica, cruel e impossível de ignorar.
No início, o excesso de descrições pode cansar. A narrativa se detém longamente na paisagem, nos gestos e nos detalhes do cotidiano das crianças na ilha. Porém, ao considerar o contexto de publicação — 1954, pleno pós-guerra —, essa escolha estilística faz todo sentido. Era comum que a literatura buscasse um tom quase “científico”, de observação minuciosa da realidade, como se fosse necessário registrar, com precisão, um mundo que havia sido profundamente abalado pela guerra e precisava ser compreendido, classificado, explicado.
A trama é simples e, justamente por isso, tão poderosa: após a queda de um avião em uma ilha desabitada, um grupo de meninos britânicos, entre seis e doze anos, precisa sobreviver sem qualquer supervisão adulta. O que começa como uma tentativa ingênua de organização, com regras, assembleias e líderes, rapidamente se transforma em um experimento social perturbador, onde a natureza humana emerge em sua forma mais crua.
Essa tensão entre instinto e civilização é o eixo central. A sanidade mental permeia toda a obra e se aprofunda consideravelmente na segunda parte, quando as ações se intensificam e os personagens passam a revelar, sem filtros, suas pulsões mais sombrias.
É justamente nessa fase que o livro se torna impactante. As cenas mais grotescas, quando a ingenuidade infantil se dissolve e dá lugar à violência, à paranoia e à crueldade, são difíceis de ler, não pela linguagem, mas pelo impacto moral. Há algo especialmente perturbador no fato de que tudo isso é protagonizado por crianças. A brutalidade não vem de monstros, mas de meninos comuns, o que torna a experiência ainda mais desconcertante. Do coração palpitar lendo..
Em muitos momentos, O Senhor das Moscas me lembrou Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Em ambos, o que está em jogo é o colapso dos contratos sociais e a pergunta incômoda: quem somos quando as regras deixam de existir?Qual é o limite da ética e da moralidade?O que define, de fato, uma civilização?Onde termina o humano e começa o animal?
Em poucas palavras, eu definiria esse livro como memorável, perturbador e muito mais profundo do que parece à primeira vista. Uma obra que não oferece conforto, nem respostas fáceis, apenas um espelho desconfortável daquilo que talvez preferíssemos não reconhecer em nós mesmos.
"Estou com medo. Da gente. Quero voltar pra casa."
vencedor do Prêmio Nobel em 1983
⭐⭐⭐⭐⭐❤️
Leia e veja o que você acha! 🥰
Leitura Coletiva @agoraliteraria_






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