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Um, Nenhum e Cem Mil, de Luigi Pirandello

  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Pirandello mergulha na questão inquietante do ser visto pelo olhar do outro e de como isso nos afeta estruturalmente. Afinal, somos o que pensamos ser… ou aquilo que os outros enxergam?


O ponto de partida é quase banal: um comentário despretensioso da esposa sobre o nariz de Vitangelo Moscarda. Mas esse detalhe mínimo provoca a ruptura do centro da sua unidade individual. A partir daí, instala-se a crise: a imagem que os outros têm dele não coincide com a sua própria. E então a pergunta se abre como um abismo, quem sou eu?


Ele constrói uma reflexão poderosa. Não somos iguais para ninguém. Somos diferentes para cada sujeito, porque cada olhar nos recorta de forma distinta. Cada nicho nos pede um pedaço, um modo de agir, uma linguagem.


Essa percepção me tocou especialmente porque dias antes eu comentava algo muito semelhante com meu filho: somos múltiplos, inevitavelmente. Para cada ambiente, uma faceta. Para cada grupo, um contorno diferente de nós mesmos. E tentar agradar a todos é não apenas ilusório, mas humanamente impossível, justamente porque para cada um somos “um”.


O autor organiza essa angústia contemporânea (e atemporal): somos “um” para nós mesmos, “cem mil” para os outros, e, no fim, “nenhum”, porque a ideia de uma identidade fixa é uma ilusão confortável. A obra expõe a fragilidade da noção de “eu” e a impossibilidade de controlar a imagem que projetamos no mundo.


Há uma ironia fina atravessando a narrativa. O protagonista percebe que nunca poderá unificar as versões que existem dele. E talvez a maturidade esteja justamente em aceitar essa fragmentação.


É um livro exigente, reflexivo. Mas, para mim, foi também profundamente organizador. Encontrei ali pensamentos que já habitavam minhas próprias reflexões sobre existência, identidade e multiplicidade, só que agora estruturados com rigor filosófico.


Uma obra que não entrega respostas fáceis, mas amplia perguntas essenciais. E talvez seja exatamente isso que a grande literatura faz: não nos define, nos desestabiliza.


"A ideia de que os outros viam em mim alguém que não era tal como eu me conhecia, alguém que só eles podiam conhecer olhando-me de fora, com olhos que não eram os meus e que me davam um aspecto fadado a ser sempre estranho a mim, mesmo estando em mim..."

⭐⭐⭐⭐⭐



Leia e veja o que você acha! 🥰


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